Amor e traumas

Tô aqui de madrugada zerando o Netflix numa série que gostei muito (Spinning Out), tão carregada de conteúdo emocional e familiar nas suas histórias que me fez fritar a cabeça em tantas coisas que eu tô 🤯 mas dentre todas essas, eu vim falar sobre amor.

A personagem principal, Kat, é patinadora de gelo e tem transtorno bipolar, assim como a mãe dela. O seriado mostra, entre várias coisas, a dificuldade dela de assumir quem ela é pras pessoas próximas a ela por medo de que não vão aceitá-la. No episódio que mais me prendeu a atenção rola um diálogo entre ela e a mãe, onde, depois de um episódio maníaco, ela pergunta pra mãe como ela aprendeu o que é amor, como ela sabe o que é sentir amor. E nas cenas seguintes, o seriado mostra uma série de demonstrações muito “loucas”, irresponsáveis e incoerentes do que também seria amor para outros personagens taxados como “normais”. E eu achei esse constraste tão interessante porque o que é amor?

É algo tão grande que não dá pra explicar e ao mesmo tempo é tão subjetivo que pode ser qualquer coisa na cabeça das pessoas! Para uma pessoa amor pode estar implícito fidelidade, para o outro não; pode vir inconscientemente carregado de ausência, medos, traumas, insegurança.. pode ser taaaaanta coisa!!! E elas podem estar falando/sentindo amores completamente diferentes na mesma relação. Alguns amores se somam, outros nos convidam a refletir.. Com tanta abertura pra ação e interpretação, se não existir responsabilidade afetiva pelos sentimentos que criamos dentro de alguém (junto com esse alguém) vamos deixando um rastro destrutivo por onde passamos.

Mas como ter responsabilidade com alguém sem ter autoresponsabilidade? E como ter isso sem coragem pra se conhecer?

Lá vem de novo o amor pedindo coragem e olhar interno, um sentimento que deixa 7 bilhões de pessoas de joelhos.. outro dia vi uma charge e ela ficou comigo: “se você tem medo do amor, você tem coragem de que?” . Algo que deveria ser tão simples, ser tão poderoso e carregado de significados ocultos me fascina.

Pra finalizar uma bomba de informações e emoções, o seriado mostra uma cena muito linda da mãe com as filhas no final do último episódio. Desculpa pelos spoilers, mas é pelo bem do conteúdo 🤣

Depois de ter mostrado as dificuldades e desestruturas que a família vive, que foram construídas principalmente pela condição emocional da mãe durante o crescimento das suas filhas, onde ele deixa muito imprintado uma “mãe ruim” e controladora, ele mostra uma mãe extremamente cuidadora, que faria tudo pelas filhas, e que tem seu próprio jeito de amar e demonstrar. E eu achei isso TÃO LINDO porque é muito real o quanto um trauma congela a gente numa imagem que criamos do acontecido e faz isso se tornar a verdade absoluta.

Quando alguém nos traumatiza, é comum que só enxerguemos essa pessoa por isso, mas ela é muito mais que isso. E pode ser muito difícil superar um trauma, mas enquanto estivermos congelados nessa impressão criada, o trauma também está lá nos congelando, e se desdobrando na nossa vida dessa forma.

Somos muito além dos nossos traumas, e as pessoas que traumatizam também são. Na verdade, eu aprendi a olhar pros traumas com muito carinho. O trauma não é o que acontece com a gente, ele é criado a partir da forma como lidamos com um evento que foi demais pra gente! É uma forma que o nosso ser achou de sobreviver, e se não fosse por esse mecanismo de defesa, o nosso brilho interno morreria.

Parece louco pensar isso, porque geralmente olhamos pro trauma como a pior coisa que poderia acontecer (e aconteceu) e que tirou o nosso fogo, mas como eu disse, eu olho pra traumas com muito carinho porque atrás deles tem os nossos maiores tesouros. São um dos maiores aprendizados, mas um dos maiores desafios.

Já falei várias vezes aqui o quanto a dor é professora, e tudo pode ser visto por mais de um ângulo.


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