O milagre do amor próprio

Umas selfies pra contar um processão:
É uma raridade eu tirar selfie, ou qualquer outra foto minha, especialmente depois do Caê. Já não olho pra camera como antes.
E isso me diz muito, uma vez que a fotografia, pra mim, sempre teve um papel importante nos meus processos de autorreconhecimento e amor próprio.

Esses dias fiquei sabendo que sobrancelha aparentemente bagunçada, tá na moda! (na verdade, ela é arrumada no salão pra ficar com aspecto de natural, um bagunçado organizado)

Desde que a pandemia começou eu não vou ao salão, então a minha sobrancelha tá na moda.

Na mesma hora, a Hadla pré-adolescente veio na minha cabeça. A que sofria bullying por ter sobrancelha demais, ser peluda demais, pequena demais, olhuda demais, peito de menos, dentes tortos demais..

As loucuras do bullying, né? Todo mundo querendo pertencer ao padrão, ao mais legal, ao mais aceito, e todo mundo deixando de pertencer ao que realmente importa, a sua própria verdade. Todo mundo se aceitando de menos, sendo o que não é, buscando pertencer fora pra se sentir seguro.

Ah como a vida seria mais fácil se a gente crescesse se amando e se valorizando.

Claaaro que amor próprio não é só gostar da nossa imagem, mas demorei anos pra achar minha sobrancelha bonita, pra amar que os meus olhos são grandes. E isso porque eu sou bem padrãozinho aceito!

Lembro de como gostei quando pude raspar os pelos do braço e me esconder um pouquinho, mas lembro como foi delicioso deixar todos crescerem de novo e foda-se. Eu já não ligava praquela bobeira mais.

Só percebi que amava ter peitos pequenos agora, na amamentação.
Quando ele mudou todo por conta da gravidez e mudou de novo depois dela, eu percebi que tava era com saudade de ter peito pequeno. Me dava menos trabalho haha

Percebi que há anos já gostava do meu corpo, sem perceber, porque há anos venho trabalhando aceitar coisas bem mais difíceis do que aceitar o meu corpo padrão. O sentimento pelo corpo foi consequência dos sentimentos pelo que tem dentro dele.

Tudo com a nossa imagem remexe montanhas profundas. É nossa porta de entrada pro mundo, de certa forma.

Passei meses conturbados pra me aceitar nesse novo corpo.
Me cobrei: “Já passei por tanta coisa, já passei por tanta terapia, já me amo tanto, porque não tô aceitando esse novo corpo?”. Como se fosse rápido, que nem tomar um remédio pra dor de cabeça.

E nessa jornada de voltar a me achar bonita de novo, eu precisei (ainda preciso) de tempo, precisei relembrar da adolescente “desajustada” que já era perfeita na singularidade dela, precisei passar pela ponte da autoaceitação de novo.

E depois dessa adolescência e todos esses anos, o feminismo veio libertar quem não quer se raspar pra encaixar no padrão de mulher que a sociedade exige, corpos reais vieram aparecendo pro bem de todo mundo e a sobrancelha que eu sempre tive virou moda hahaha o diacho da moda!

Enfim, como a vida seria mais fácil se a gente crescesse se amando!


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