O luto que vem com a maternidade

Não que a minha mente racional já não soubesse, mas precisei ouvir minha prima dizer numa conversa sobre maternidade esse final de semana pra realmente me dar o click, de corpo todo: eu ainda estou vivendo um luto. E não é confortável dizer isso em voz alta, mas eu preciso.

E como todo processo emocional, ele só tem certo o início. Ninguém sabe quanto tempo O Ermitão vai demorar pra sair da caverna.

Eu perdi minha única avó quando nova, e me doeu muito, mas não me lembro do luto. Não perdi muitas pessoas próximas na vida.

Mas já me perdi muitas vezes de mim, e do luto dessas eu me lembro bem. Já disse mais adeus a vínculos afetivos do que gostaria.

Parece que o click levou metade da dificuldade de nomear o caos que eu tenho vivido desde que Caê chegou. Luto!

E na hora me veio viários flashes de informações que foram me marcando ao longo das últimas semanas: cenas de filmes que me tocaram demais, frases que li que martelaram na cabeça por dias, músicas que não saíam da cabeça. Meu inconsciente já estava me preparando pro click com pedacinhos de informações.

Aprendi algumas coisas que me ajudaram a navegar ao longo dos lutos/anos, mas esse foi o maior de todos. Não tenho ferramentas. Ainda.

A dificuldade de sair do casulo, de me manter interativa, de escrever/criar/produzir e de certa forma, trabalhar. A correnteza de emoções densas estar maior do que de costume (angustia, tristeza, choro, irritabilidade, desânimo, medo, incerteza, desespero). Sobrecarregada de tanto sentir. A oscilação, a eterna Melancolia que senta e faz companhia.

“Olá, entra! Vou fazer um chá.” Como se eu pudesse mandá-la embora.

Nada disso é novo. Sempre tive períodos assim de casulo, mas esse é grande. Estou nele desde a gravidez.

Luto.

Perdi varias versões de mim. Perdi identidades e identificações. Lugares, físicos, corpóreos, emocionais. O meu guarda-roupa já não era mais meu. Aliás, quem sou eu?

Os gostos já não eram mais os mesmos. Quais são agora? Não sei, não deu tempo de saber. Respira que lá vem outra onda.

Pessoas se foram juntos. E a paciência pra muita coisa também.

“Oi, apego! Você tá aqui também. Senta”

Todos os mecanismos de sobrevivência ativos e em alerta. “Oi, Negação.. se junte a roda!”

Perdi tanto que o que eu sei de reconstrução não tampava o buraco. Precisei viver o buraco, esquecer da necessidade de sair, esquecer a terapeuta, pra ter chances de sair.

Ainda não saí. Luto.

Tem algumas semanas que percebo dias de sol mais frequentes, mas logo acontece algum grande imprevisto que me arrasta de novo, mas pelo menos o sol tem aparecido.

“Seria você chegando, Aceitação?”

Talvez. Talvez só saiba depois de um tempo com o pescoço do lado de fora da água. Ou mais tempo do lado de dentro.

Vou continuar sentando pra tomar meu chá com essas senhoras. Ainda tenho muito pra aprender com elas.

“Ih, agora chegou o Tempo. Vou pegar mais uma cadeira.”

Luto.


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